O fim de semana prolongado foi de filmes. 4 no total. Dèja Vu, Paranóia, Reine Sobre Mim e Simpsons.
Reine Sobre Mim foi o melhor.
Aliás, o filme é notável, e na minha opinião vale a pena ser visto. Fala, de maneira muito particular e interessante, sobre o 11 de setembro.
Até aí, nenhuma novidade, já que trocentos outros filmes já falaram de trocentas outras coisas historicamente relevantes, como o Dia D, a bomba de Hiroshima, a Segunda Guerra Mundial, o Nazismo... as novidades são, em primeiro lugar, que ele fala do 11 de setembro em segundo plano, como causa implícita para o drama do filme, que é a real história, e em segundo por quê faz pensar sobre o 11 de setembro de forma não-ostensiva.
Eu explico.
Por "falar do 11 de Setembro em segundo plano" eu quero dizer que só lá pelas tantas do filme é que você percebe que realmente o conflito - identificado como síndrome pós-traumática pela deusa Liv Tyler, fantástica, apesar dos comentários enciúmados da minha namorada - vivido pelo Adam Sandler (Charlie Fineman é o personagem), foi desencadeado pelos atentados terroristas, o trauma da sua síndrome. Isso é dado sutilmente ao longo do filme quando por exemplo o seu empresário Sugarman (interpretado pelo diretor do filme Mike Binder) diz que ele ficou assim no dia 12 de setembro de 2001, ou com a raiva que o protagonista mostra por terroristas. As notícias sobre conflitos que Fineman vê na tv, que têm presença constante de terroristas na vida real, consolidam o fato de que o filme se trata de um efeito da fatídica data, não precisando tirar o foco da obra enquanto drama, para joga-lo no terreno do comercialmente aceitável, correndo o risco de ofuscar o brilhantismo do trinômio enredo/diretor/elenco.
E sobre "faz pensar sobre o 11 de setembro de forma não-ostensiva", entenda que o filme muda pensamentos mais radicais sobre a data tirando o foco institucional e lançando um olhar individualizado sobre as verdadeiras vítimas.
Como assim ?
Imagine só: com certeza você tem um amigo, ou pai de um amigo, ou chefe - ou você mesmo -, que se diz "feliz" pelo atentado, por mostrar ao gigante EUA que o pequeno Afeganistão, alimentado à base de pólvora americana (já que os EUA fomentaram belicamente a sua independência da ex-URSS simplesmente porque a dissolução da outra potência polarizadora interesava à "América") havia posto seu antigo mestre de joelhos, enfim, esse blá-blá-blá todo de xiita de fim de semana que, de um jeito ou de outro, reconfortava ou pelo menos tornava tolerável a agressão ao "império do capitalismo".
Só que, vendo o filme, e pensando a potencialidade de "efeito colateral" causado (personificado pela perturbação de Charlie), percebe-se que não se tratou de uma agressão ao "império do mal", e sim à milhares de pessoas que, mais ou menos culpadas, foram atingidas de forma covarde e tiveram suas vidas tragicamente decepadas por uma guerra a qual muitos nem sabiam existir.
Essa é a visão que devemos ter, independente de simpatizarmos ou não com o Bush The Kid, o governador Exterminador do Futuro ou o American Way Of Life.
Imagina se um grupo de etíopes te para na rua e espanca, só porquê o Ronaldinho Gaúcho ganha 700 mil dólares por mês e no país deles não existe o que comer ? Isso faz sentido ? Não né ! Poderiam, no máximo, arrebentar o Ronaldinho, apesar de não fazer muito sentido também. Eu, por ser Brasileiro, não posso responder pelos atos de outras pessoas as quais a única coisa que têm de comum comigo é a procedência do documento de identificação, e nessa pauta eu extendo o meu raciocínio não para a "instituição" Estados Unidos da América, mas sim para os indivíduos que foram as verdadeiras vítimas dos atentados, e acho a analogia perfeitamente cabível.
Enfim, pelo conjunto da obra, é um filme que merece ser visto. Especialmente o Adam Sandler (de novo), que sempre foi muito bem como palhaço e agora parece ter acertado também no drama (ele já tinha misturado ambos em Click, fraquíssimo). Don Cheadle está bem como sempre, e consegue ter seu tempo de protagonista no filme ao descobrir que sua relação com a esposa e com os colegas de trabalho se deteriorou e saiu do "ideológicamente correto", e o seu anticlimax é o esforço quieto que faz para isso volte ao normal.
E a Liv Tyler... bom, da Liv Tyler eu não preciso nem falar. E ainda por cima está bem em sua atuação como psicóloga-amiga-advogada, apesar de não fazer frente aos dois protagonistas.
A trilha sonora, com clássicos do Rock'n Roll, não destoa: fantástica ! E coroa um filme do qual eu não esperava nada, e que me supreendeu positivamente, coisa rara no cinema comercial.
Reine Sobre Mim (Reign Over Me)
EUA / 2006 - Drama. 124 min.
Diretor Mike Binder
Roteiro Mike Binder
Sony Pictures
Adam Sandler, Don Cheadle, Jada Pinkett Smith, Liv Tyler, Saffron Burrows, Cicely Tyson, Robert Klein, Melinda Dillon, Camille LaChe Smith

1 cornetadas:
É...acho que vou ver esse filme e tentar bater em um etíope que bater em mim ao invés do Ronaldinho Gaúcho.
E pensar que a boca da Liv veio do cara do Aerosmith...
Postar um comentário