"chase down an empty street, blindly snap the broken beats"
Sábado, 11 de novembro de 2007. 5:30hs da manhã. Eu levanto e ouço a chuva tão alto que parece que tem uma torneira aberta dentro do quarto.
E esta foi a primeira vez naquele dia que eu pensaria em desistir.
E também a última.
De guarda-chuva na mão, na escuridão da madrugada que ainda se apoiava na sobrevida do horário de verão, corri até o carro - mas deveria ter economizado o fôlego pra mais tarde - e, mesmo com o quadro avançado de insuficiência que o limpador de para-brisa apresentava, toquei em direção à casa da Glaucia.
Nos meus 26 anos inteiros de vida ainda não tinha visto tanta chuva quanto nos 8 minutos que levei para ir da minha casa até a dela, do outro lado da Avenida Paulista.
E tudo isso temperado à base de SMS's desencorajadores. Sem sucesso.
Chegando lá, Dona Glaucia me esperava na esquina com a sua camisetinha azul, número baixo - 254 - e, de passo apressado se jogou pra dentro do carro, dando um berrinho de Bom Dia primeiro, para depois começar a esculhambar com a chuva.
E aí então começava a Nike 10k para mim.
(Sobre 10k: é a corrida de rua anual da Nike; ela acontece em 11 países da América Latina no mesmo dia; o seu percurso é de 10 kilometros)
Quando eu corro, eu me sinto mais ou menos assim:
- POR CONTA PRÓPRIA -
Porque eu sei que se não terminar os 10km, ficarei no meio do nada. Porque não vai ter ninguém pra me dar carona até a chegada. Porque não dá pra "roubar" o percurso. Porque tem um caminhão de pessoas querendo saber como eu fui na corrida, e em quanto tempo eu terminei a corrida. Porque eu, meu pulmão e minhas pernas são os únicos que podem me levar até o fim.
E ainda tem a vontade de desistir. Ahhhh, a vontade de desistir.
Imagina uma pessoa trocentos kgs acima do seu peso, sem treinar há mais de um ano. Ensope esta pessoa e aí você vai ter uma idéia de quem eu fui nesse dia 11-11.Eu falei pra Glaucia antes mesmo de começar a corrida que se eu chegasse ao 7º km correndo, aí eu iria até o final sem dar um passo sequer andando. Mas a verdade é que eu não esperava terminar a prova correndo, nem andando, nem engatinhando.
Com sorte, eu cruzaria a linha de chegada na UTI móvel da Organização. Na verdade eu quis dizer que se chegasse ao 7º km andando, aí sim talvez eu passasse na linha de chegada. Nem na época que eu treinava eu conseguia fazer 10km correndo na esteira (!!!), belo sonho pegar subida, descida, barro e afins pra fazer essa distância, ainda por cima ensopado ! Eu juro que achei que pensaria em desisitir - e o principal, seria complacente com esse pensamento - milhões de vezes mais do que isso realmente aconteceu.
E aí eu fui correndo, prestando atenção nas pessoas, nos postos de som, nos cheerrunners, e quando eu vi eu já estava tão envolvido com esse negócio de correr que eu não podia mais parar. Eu já tinha ido até ali, e nada ia me parar. Muita gente me passava, e eu feliz da vida, não queria parar.
Imagina correr por mais de uma hora... chega uma hora na corrida que o movimento fica automático, e aí você não tem nada pra fazer além de pensar nas coisas. Pensar na vida. É isso que sempre me encantou em correr. Vai poder pensar na vida assim lá longe. E o legal é que você pensa cansado, suando, em desconforto. As coisas tem um enfoque diferente do ponto de vista de quem pensa correndo, literalmente.
Passei pelo barro - que provocou o término precoce da carreira do meu querido tênis de corrida, imundo que ficou -, passei pelo ponto de hidratação, pelo fotógrafo, por outra estação de som, por uma subidinha, por uma descidinha, por outra estação de hidratação... pensando, pensando e pensando !!! E quando eu vi o sétimo kilometro já estava logo ali. Pensei triunfante: "Ah, 10k, esperava mais de você !!!", e corri pensando ainda mais.
E nem a subida cáustica do kilometro 9 me fez desanimar, e no descidão final da corrida, que desembocava na chegada, eu não conseguia parar de rir. Eu até gargalhei.
Gargalhei porque eu tinha conseguido uma coisa que eu não esperava, como aqueles R$50,00 que a gente acha no bolso da calça guardada faz tempo, e porque eu sou um cara bem menos disciplinado do que eu gostaria de ser - e de repente eu vi que eu "tinha jeito". Fiz com folga o que nem eu acreditei que eu faria e isso, isso é melhor do que qualquer conquistazinha amorosa barata por aí, melhor do que ser promovido, melhor que dormir o domingo todo, e quase melhor que ver o Palmeiras jogar.
E esta corrida, que tinha tudo pra ser um desastre de auto-estima, prova substancial de que eu não consigo me superar, demonstração de fraqueza pública, e todas aquelas outras baboseiras emo, acabou virando o novo crossroad da minha vida. Como o meu querido chute no balde.
De novo.
E isso é bom pra caralho.
Quer dizer, isso é melhor pra caralho.

1 cornetadas:
Minha admiração cresceu coisa do tipo 125% em relação a vc hauhauhauhaua vc fez 10 km parecerem 1! Quem me dera correr tanto com as minhas pernas curtas e seca!
Medalhinha pra vc! (\O/)
Beeeeeejo
ps. adorei a camisetinha azul!
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